Play Brasil (Santo André - SP) Whatsaap: 11 93496-0991
MP apura fechamento de centro de convivência fundado por padre Julio e que distribui alimentos; prefeitura fala em 'reorganização'
06/03/2026
(Foto: Reprodução) Núcleo de Convivência Centro Comunitário São Martinho de Lima em 2020
Divulgação/Prefeitura de SP
O Ministério Público de São Paulo instaurou nesta sexta-feira (6) um inquérito civil para apurar o possível fechamento do Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, localizado no bairro Belenzinho, na Zona Leste da capital, e que atende cerca de 400 pessoas.
O espaço, fundado pelo padre Julio Lancellotti, que atualmente não tem mais vínculo com a administração, existe há 35 anos e distribui diariamente mais de 400 refeições.
A informação sobre o fechamento foi revelada pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada pelo g1. Em nota, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social disse que o espaço passará "pelo processo de reorganização, ao longo do mês, de forma gradual para não gerar impacto" (veja mais abaixo).
No documento, o promotor de Justiça Ricardo Manuel Castro afirma que, segundo a gestão municipal, a medida estaria inserida em um processo de requalificação da rede socioassistencial do município, com o objetivo de aprimorar os serviços prestados e garantir maior qualidade no atendimento aos usuários.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
No entanto, ele destaca não haver demonstração inequívoca de que não haverá descontinuidade no atendimento à população atendida pelo equipamento.
O promotor também cita que cabe ao Ministério Público zelar pelo efetivo respeito aos direitos previstos na Lei Orgânica da Assistência Social e fiscalizar o cumprimento das normas constitucionais e legais relacionadas à assistência à população vulnerável.
Como parte das providências, o Ministério Público recomendou à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social que não promova o fechamento do centro de convivência antes de apresentar provas inequívocas das razões de fato e de direito para a medida.
O órgão também solicitou que sejam informadas as ações adotadas para evitar qualquer interrupção na prestação dos serviços à população em situação de rua.
Após liminar da Justiça, Prefeitura de SP recua e decide manter aberto centro que acolhe 157 imigrantes e refugiados
A pasta e a entidade mantenedora do espaço terão prazo de 15 dias para apresentar esclarecimentos por escrito. Já em relação à recomendação do Ministério Público, a secretaria deverá apresentar resposta circunstanciada no prazo improrrogável de 10 dias.
O promotor também determinou a realização, com urgência, de uma vistoria no equipamento por parte do Núcleo de Assessoria Técnica do Ministério Público. Após o recebimento das respostas e a verificação da continuidade do funcionamento do local, será avaliada a necessidade de abertura de um procedimento específico de fiscalização.
Ao g1, o padre Julio Lancellotti, que ajudou a fundar o espaço, ressaltou que o encerramento das operações do centro deixará pessoas sem assistência.
"O documento recebido pelo centro dizia que, se estiverem de acordo, eles têm 45 dias para se preparar para o encerramento das atividades. Se não estiverem de acordo, o encerramento é imediato. São pessoas que não serão atendidas mais, é uma política de invisibilização dessas pessoas que não têm como sobreviver de outra maneira, nem voz", afirmou.
O vereador Toninho Vespoli (PSOL) publicou, em suas redes sociais, que "tomará as medidas judiciais necessárias para impedir esse fechamento".
"Fechar um lugar que oferece comida e dignidade não resolve a pobreza nem a crise social que cresce nas ruas de São Paulo. Diante dessa decisão, nosso mandato tomará as medidas judiciais necessárias para impedir esse fechamento e defender a continuidade de um serviço que garante alimentação e acolhimento a centenas de pessoas todos os dias", afirmou.
O que diz a prefeitura
Ao g1, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social enfatizou que "a medida integra uma estratégia de requalificação da rede socioassistencial do município, com o objetivo de aprimorar os serviços prestados e garantir mais qualidade no atendimento às pessoas em situação de vulnerabilidade".
Ainda conforme a pasta, no caso do São Martinho, por exemplo, atualmente, parte da população já é atendida no Arsenal da Esperança, mas apenas no período noturno.
"Com a requalificação, essas pessoas poderão permanecer acolhidas durante todo o dia também, participar de atividades e se desenvolver, visando uma possível saída qualificada e a conquista da autonomia. Durante todo o processo, nenhum usuário ficará sem alimentação ou acolhimento".
A gestão de Ricardo Nunes ressaltou também que a reestruturação prioriza a continuidade do atendimento à população em situação de rua, com foco na qualidade e na dignidade dos serviços prestados.
"Como parte dessa reorganização, o local também passará a ampliar a oferta alimentar, com mais 900 refeições por dia".
Sobre o inquérito, a pasta disse que recebeu a notificação do MP sobre a instauração de inquérito para apuração do tema.
"A pasta esclarece que já iniciou o levantamento das informações necessárias e está em processo de análise para prestar todos os esclarecimentos solicitados. A resposta será encaminhada dentro do prazo estabelecido pelo Ministério Público, com as informações técnicas pertinentes".